A indústria automotiva da América do Sul deu um passo inédito em abril de 2026 ao consolidar uma aliança estratégica entre Brasil e Argentina para enfrentar a crescente pressão comercial das montadoras chinesas. O acordo, denominado ‘Declaração de Buenos Aires’, foi firmado durante o evento Automechanika, realizado entre os dias 8 e 11 de abril na capital argentina, e seguiu repercutindo com força ao longo da semana de 20 a 23 de abril.
O documento reúne as principais entidades do setor dos dois países: pelo Brasil, assinaram a Anfavea (associação das montadoras) e o Sindipeças (fabricantes de autopeças); pela Argentina, a Adefa e a Afac. A declaração estabelece uma agenda integrada com foco em competitividade e atração de investimentos, marcando uma mudança de postura histórica: o Mercosul automotivo deixa de se concentrar na gestão do comércio bilateral para priorizar uma estratégia conjunta de produção e exportação para o mercado global.
O pano de fundo é a escalada das marcas chinesas. O setor automotivo é um pilar vital para a economia da região, respondendo por cerca de 20% do PIB industrial brasileiro e empregando mais de 1,9 milhão de pessoas nos dois países. As montadoras já instaladas no Brasil há décadas — especialmente as europeias e americanas — afirmam não conseguir competir com os custos das fabricantes asiáticas nas condições atuais, e pressionam por medidas de proteção industrial mais robustas.
Paralelamente, o governo reiterou o cronograma progressivo de aumento das tarifas de importação para veículos eletrificados: a alíquota para carros montados e semidesmontados chegará a 35% em julho de 2026, enquanto os veículos desmontados atingirão o mesmo patamar em janeiro de 2027. O objetivo declarado é forçar as montadoras a aumentar gradualmente o índice de nacionalização de seus veículos no Brasil.
O tabuleiro, no entanto, ganhou uma peça complicadora inesperada. O chamado ‘tarifaço americano’ — a imposição de taxas de 50% sobre exportações brasileiras para os Estados Unidos — ameaça diretamente a indústria automotiva nacional. Especialistas ouvidos pelo portal Notícias Automotivas alertam que a medida poderá reduzir a zero as exportações de motores e componentes para o mercado americano, um fluxo relevante para fábricas de empresas como GM, Ford e Volkswagen instaladas no Brasil.
O efeito colateral, segundo analistas, pode ser o oposto do desejado: ao fragilizar as exportações brasileiras e reduzir a competitividade das montadoras tradicionais, o cenário tende a ampliar o espaço das marcas chinesas no mercado interno. Como resume o consultor automotivo Cássio Pagliarini, o Brasil não tem barreiras geopolíticas contra a China, diferentemente dos Estados Unidos e da União Europeia, o que torna o país um destino cada vez mais atraente para as fabricantes asiáticas.
As novas regras de integração previstas na Declaração de Buenos Aires devem ser consolidadas antes de 2029, com metas progressivas de harmonização regulatória, padronização técnica e eficiência aduaneira entre Brasil e Argentina. O prazo, contudo, preocupa parte dos especialistas: em um mercado que se transforma tão rapidamente, quatro anos podem ser tempo demais.

