GP2 Series: em um ano, GP2 tira quase três segundos da Fórmula 1

Mesmo com traçado maior na Espanha, a diferença de tempo caiu. Avanço equivale a uma perda de 163,7 metros por volta, ou aproximadamente 1,6 km a cada dez voltas.

As equipes da GP2 já nutriam uma expectativa quanto à diferença de tempos entre a Fórmula 1 e a GP2 no Circuito da Catalunha, onde as duas categorias correram no último fim de semana e onde também ambas realizam testes. Como se sabe, tanto a GP2 quanto a Fórmula 1 apresentaram novidades técnicas para 2007, mas ninguém esperava um avanço tão expressivo da categoria formadora de talentos em relação ao torneio principal até que, recentemente, o japonês Kazuki Nakajima testou um Williams e depois andou com seu próprio GP2, assinalando uma diferença de apenas 5,5 segundos entre os dois bólidos na pista espanhola. No último fim de semana, as duas categorias registraram seus tempos oficiais no traçado catalão reformado, que agora tem 4.655 metros – ou seja, conta 28 metros a mais do que a versão usada até 2006.

Apesar desse aumento de extensão da pista, a diferença de tempos entre as duas categorias foi reduzida em 2s864, tomando-se como base as pole positions das temporadas 2006 e 2007. O número pode não impressionar à primeira vista, mas torna-se notável sob a ótica da dinâmica de uma corrida de automóvel e do desenvolvimento técnico anual das duas categorias. Para se ter uma idéia, este avanço representa uma perda de 163,7 metros por volta da Fórmula 1 em relação à GP2, ou algo equivalente a 1,6 quilômetros a cada dez voltas completadas em uma corrida – ou seja, em termos de competição, o avanço da GP2 foi grande.

“A principal diferença entre o traçado de 2006 e o de 2007, além do tamanho agora maior, é que temos um ‘esse’ relativamente lento no lugar da curva de alta que levava à maior reta. Essa mudança aumentou o tempo necessário para se completar uma volta”, comenta o brasileiro Sérgio Jimenez, estreante na GP2 que obteve pontos nas duas corridas realizadas no fim de semana.

Realmente, as duas categorias apresentaram tempos de volta maiores e médias horárias menores em 2007 se comparados aos do ano passado. A Fórmula 1 perdeu 17,324 km/h em relação a sua própria média de 2006, enquanto a GP2 teve uma redução bem menor (7,949 km/h) – em outro indicativo do avanço da categoria de aspirantes. Mas, analisando o dito por Jimenez acima, talvez encontremos uma parte da explicação para este aumento de performance em relação à Fórmula 1. É o próprio piloto quem dá mais detalhes:

“A GP2 teve sua aerodinâmica revisada para 2007, mas nada comparado à transformação e ao refinamento que os F1 sofrem constantemente ao longo da temporada e também de uma temporada para a outra”, explica Jimenez. “Assim, como a pista ficou mais lenta, a F1 perdeu parte de sua vantagem em relação à GP2. Isso se deve ao fato de a eficiência aerodinâmica crescer proporcional e exponencialmente com o aumento da velocidade alcançada de uma forma geral. Então, um carro de aerodinâmica tão refinada quanto um F1 é ainda mais eficiente quanto mais rápido ele andar. Para se ter uma idéia, um F1 moderno é capaz de produzir mais de duas vezes seu próprio peso em downforce aerodinâmica – a força gerada pelo vento, que empurra o carro contra o solo e assim aumenta a aderência”, continua o brasileiro da equipe Racing Engineering de GP2.

Outro detalhe diz respeito aos pneus. Nesta nova era da Bridgestone como fornecedora exclusiva de todas as equipes, a Fórmula 1 passou a utilizar um composto considerado dois segundos em média mais lento do que o empregado no ano passado, uma diferença muito grande. Na GP2, em função do piso abrasivo da Catalunha, os pneus também são mais duros (para resistir mais ao atrito no asfalto), mas a diferença não é tão expressiva.

Outros números podem oferecer um entendimento mais preciso do que aconteceu na Espanha neste fim de semana. O alemão Timo Glock conquistou a pole de 2007 com seu Dallara/Renault V8 de GP2 percorrendo 53,070 metros por segundo. Já Felipe Massa foi o melhor do grid da F1 andando 57,171 metros por segundo – ou seja, abrindo cerca de 4,101 metros por segundo em relação ao melhor GP2 do grid. No ano passado, essa diferença era de 6,706 metros por segundo, ou aproximadamente 50% maior.

“Quanto mais a GP2 se aproxima da F1 em termos de desempenho, melhor para quem pretende chegar à categoria máxima, pois estará fazendo o melhor treinamento possível para alcançar seu objetivo”, explica Sérgio Jimenez. “A redução da diferença de performance em relação à F1 que vimos em 2007 não é pouca coisa. Ela significa que estamos mais rápidos nas retas, contornando curvas com mais precisão e reacelerando melhor – praticamente tudo o que se deve querer de um bom piloto e de um carro eficiente. Claro, a F1 ainda está muito longe, mas a GP2, com essa rápida evolução, está se mostrando um bom laboratório de pilotos para ela”.

Há mais aspectos que chamam a atenção. Primeiro, o financeiro: o orçamento de uma equipe de ponta da Fórmula 1 gira em torno de 300 milhões de Euros, segundo levantamento publicado recentemente pela revista especializada F1 Racing – este número se refere a times como Ferrari e Toyota. Na GP2, uma equipe competitiva chega a contabilizar muito menos: 3,6 milhões de Euros por ano – também visando alinhar dois carros no grid, como acontece na F1. Mesmo assim, no aspecto esportivo essa disparidade orçamentária pode levar a um questionamento, já que as provas da GP2 são sempre emocionantes. Na corrida de sábado passado, por exemplo, ultrapassagens e pilotos assumindo riscos foi o que não faltou – somente Jimenez passou seis adversários. Pior do que isso, na F1 ficou consagrada a estratégia da ‘ultrapassagem no box’, o que por si já mostra que alguma coisa precisa mudar.

NÚMEROS E ESTATÍSTICAS

Caiu a diferença entre as categorias

2006: 9s156 a favor da Fórmula 1
2007: 6s292 a favor da Fórmula 1
Diferença reduzida em: 2s864
Equivalência: 163,7 metros por volta ou 1,6 km a cada dez voltas

Metros por segundo em 2007

GP2: 53,070
Fórmula 1: 57,171
Diferença: 4,101

Metros por segundo em 2006

GP2: 55,278
Fórmula 1: 61,984
Diferença: 6,706

Diferença das médias horárias

Da F1 para a F1: 17,324 km/h a favor de 2006
Da GP2 para a GP2: 7,949 km/h a favor de 2006

Traçado modificado

Em 2007: 4655 metros
Em 2006: 4627 metros
Diferença: 28 metros

Orçamento anual para obter este resultado

Fórmula 1: 300 milhões de Euros por equipe
GP2: (máximo de) 3,6 milhões de Euros por equipe

(Valores aproximados das equipes que mais investem)

Compare nos carros: três diferenças básicas

● GP2: 1) pneus slick (totalmente lisos) mas com as mesmas dimensões dos usados na Fórmula 1, 2) motor Renault padronizado para todas as equipes, 4.0 de capacidade cúbica e 600 cv de potência, 3) aerodinâmica padronizada, mas com efeito-solo (o que é vantajoso)

● Fórmula 1: 1) pneus sulcados (menor área de contato com o solo), 2) motor 2,4 de aproximadamente 900 cv construído sob medida para cada equipe por grandes empresas, 3) aerodinâmica continuamente desenvolvida e retrabalhada sem parar em túneis de vento, tornando os F1 verdadeiras esculturas de alta tecnologia em movimento, sendo essa característica mais desenvolvida atualmente

Os tempos no Circuito da Catalunha

● Provas de 2007 – Traçado de 4655 metros

GP2: pole em 1:27.713, média de 191,052 km/h, por Timo Glock, Dallara Renault, equipe iSport International

Fórmula 1: pole em 1:21.421, média 205,819, por Felipe Massa, Ferrari F2007

● Provas de 2006 – Traçado de 4627 metros

GP2: pole em 1:23.704, média de 199,001, por Nelsinho Piquet, Dallara/Renault, equipe Minardi/Piquet

Fórmula 1: pole em 1:14.648, média de 223,143 km/h, por Fernando Alonso, Renault R26

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