GT3 Brasil: Campeão da Stock, Alencar Júnior se despede das corridas em Interlagos

Aos 60 anos de idade e 33 de automobilismo, goiano se retira das pistas após as duas etapas finais de São Paulo.

Dono de um currículo bastante rico no automobilismo brasileiro, o goiano Alencar Junior teve uma trajetória marcada dificuldades mas também por muitas alegrias dentro das pistas. Neste final de semana, durante a última rodada da temporada 2007 do Brasil GT3 Championship, Alencar, com 60 anos, despede-se das funções de piloto. Foram 33 anos de carreira, período no qual Alencar conquistou um título na Stock Car (em 1982, ainda na época dos Opala). Em 2007, ele tem sido parceiro na condução de um Ferrari F430 do paulista Rafael Derani, uma das revelações da GT3 na atual temporada.

Com fala firme e olhar concentrado, o goiano é uma “figurinha carimbada” bastante conhecida nos bastidores do automobilismo por seu bom-humor e irreverência: em 2004, descobriu que tinha câncer e, para amenizar a situação, revolveu voltar às pistas – “Já que vou morrer, vou morrer me divertindo”, disse. Sobre a GT3, Alencar resume sua opinião em uma frase: “O Ferrari F430 é o melhor carro que já pilotei, maravilhoso”. O entusiasmo pelo esporte também é uma marca registrada: “Eu amo o automobilismo”, afirma. Alencar apenas mostra tristeza ao lembrar que sua cidade, Goiânia, não tem mais um autódromo capaz de receber continuamente as categorias nacionais.

Como foi seu início de carreira?
Comecei em 1974, correndo na Divisão 1 com Opala. No ano seguinte, fui campeão goiano da Copa Planalto (que reunia pilotos de Brasília e Goiânia) e da Copa Minas-Goiás. Depois parti para a Fórmula Ford, mas também competi na Divisão 1 simultaneamente. Fui terceiro em ambos os campeonatos e não corri em 77 por falta de dinheiro.

Era mais difícil arrumar patrocínio naquela época?
Acho que é igual. Mas em 78, por exemplo, eu não estava correndo e o Brasileiro da Divisão 1 só teria duas corridas: uma em Goiânia e outra em Brasília. Em Goiânia fui lá só para assistir e o João Carlos Palhares tinha dois carros. Ele ia escolher um para correr e me deixou pilotar o segundo. Isso hoje em dia não acontece mais. O fato é que fui mais rápido que ele com o carro novo. Aí o João trocou de carro, e me deu o mais velho. Fui mais rápido ainda, mas acabei correndo com o novo. Ganhei uma corrida e fui segundo na outra, mas na soma dos resultados acabei como vice-campeão.

Você era um dos pilotos no grid quando a Stock Car estreou, não é?
Sim, eu só tinha o carro. Não tinha peças, não tinha mecânico. Sobre essa estréia, em Tarumã, tenho uma história curiosa. Comprei a passagem e um amigo veio comigo. Ele me perguntou se era possível eu chegar entre os seis primeiros. Falei para ele: “até faltando uma roda”. Eu era marrento. Nos treinos, eu andava pouco para economizar o carro, afinal, se quebrasse, não teria peças e nem mecânico. De repente, um rapaz se ofereceu para ajudar. Falei que não tinha dinheiro para pagá-lo e ele ajudou mesmo assim. Na classificação, fiz a pole-position e na corrida disputava com o Paulão Gomes e o Raul Boesel. Eu estava em primeiro na última volta, quando na curva 9 quebrou a minha roda dianteira direita e cheguei em terceiro. Faltando uma roda.

Você teve um acidente grave, não foi, alguns anos depois?
Sim, em 1987. Na corrida de Tarumã, meu acelerador travou e bati forte na Curva do Laço. Fiquei seis meses numa cadeira de rodas e o ano seguinte praticamente inteiro andando de muletas.

E a vontade de correr?
Eu me arrisquei. Em 88, ainda de muletas, voltei para a Stock. Arrumaram um carro para mim e tentei a classificação. Fiz o terceiro melhor tempo, mas não corri porque meus pés não tinham movimento e meu pé esquerdo teve de ser amarrado à embreagem (risos)! Peguei o avião e voltei para Goiânia.

Como foi andar de Fórmula?
Quando ainda estava me recuperando, corri na Fórmula 3 Sul-Americana, em 89. Fiquei em terceiro no campeonato no ano seguinte. Em 91, decidi ir para os Estados Unidos tentar a Indy Lights, mas acabou não acontecendo. Então parei em definitivo e fiquei por lá durante dez anos, trabalhando com exportação de carros.

Mas você disputou algumas provas nos Estados Unidos…
Em 93 eu fiz duas provas de Porsche: o GP de Miami e a corrida de Savana, num Porsche biturbo de seis marchas. Tinha até ex-piloto de Fórmula 1 no meio, como o Patrick Depailer. Mas depois disso voltei a pilotar só em 2005.

E como foi a volta depois de tanto tempo?
No final de 2004 eu estava fazendo exames para uma cirurgia de hérnia marcada para janeiro. Nos exames, foi descoberto um câncer de próstata em estágio inicial. Pensei comigo mesmo “já que vou morrer mesmo, vou morrer me divertindo e correndo”. E fui correr no Trofeo Maserati.

E está aqui…
Pois é, corri em março (2005). Fui operado em janeiro, as duas cirurgias em uma só. Sentei no carro e eu tinha 370 pontos pelo corpo, na barriga e internos. Corri e terminei em segundo lugar.

E parece não ter perdido a velha forma ao volante…
Fui vice-campeão e no Rio de Janeiro teve o Mundial de Maserati, que reunia os campeões e vices dos torneios de todo o mundo. Fui o campeão mundial de 2005, e em 2006 venci o brasileiro. Então fui convidado para disputar a GT3, essa categoria maravilhosa. Como eu já tinha um patrocínio pensei “por que não?”, e aqui estou.

Como é andar nestes carros?
Já guiei carros mais rápidos, como o Porsche nos Estados Unidos e um Corvette nas Mil Milhas do ano passado. Mas o melhor, em todos os aspectos, é o Ferrari F430. A sensação de controle que o carro te passa é fantástica. Te dá toda a segurança para você tentar ser o mais rápido possível.

Quais foram as maiores dificuldades que você já enfrentou?
Foi sempre a questão financeira. Uma vez o Nelson Piquet me arrumou um patrocínio de uma petroleira para eu disputar a Fórmula 3 Inglesa. Então veio uma alta absurda do dólar e eu, que precisava de 150 mil dólares para correr, teria que gastar o dobro disso. Aí decidi ficar por aqui mesmo.

E alegrias?
Estar dentro do carro já é uma alegria. Acho que em todos esses anos Deus me abençoou muito porque eu só tive alegria.

Pior adversário?
No automobilismo não tem adversário fácil. Nem retardatário facilita.

E os planos para após a aposentadoria?
Vou cuidar dos meus negócios em Goiânia, mas quero continuar envolvido no automobilismo, talvez como chefe de equipe, não sei. Só sei que quero continuar no ambiente, só que não vestindo mais macacão e capacete.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *