F1: Em dossiê, Nelsinho detalha plano com Renault e diz que estava ‘frágil’

Conforme revelado na última quarta-feira, a investigação sobre o episódio da Renault em Cingapura começou com o aviso de Nelson Piquet ao presidente da FIA, Max Mosley, dias antes da demissão do filho. Já desligado da equipe, Nelsinho foi à sede da entidade em Paris para entregar um dossiê com a denúncia do que ocorreu naquela corrida.

Na declaração entregue à FIA, Nelsinho confirma a versão divulgada na quarta-feira, de que teria aceitado bater deliberadamente na volta 13 do GP de Cingapura a fim de favorecer a vitória do companheiro Fernando Alonso. Ele ainda dá detalhes das conversas com o seu ex-chefe, Flavio Briatore, e o diretor de engenharia da Renault, Pat Symonds, e diz que estava “mentalmente frágil”.

O documento foi divulgado nesta quinta-feira, na íntegra, pelo site F1SA (leia abaixo  os principais pontos do documento). O testemunho tem quatro páginas, todas grafadas com um visto do piloto, e é encerrada por uma declaração formal: “Acredito e juro que os fatos são verdadeiros”. Em seguida, Nelsinho assina com a data do dia 30 de julho de 2009.

“Faço esta declaração voluntariamente, para que a FIA possa exercer as suas funções de supervisão e regulação. Estou ciente de que há um dever para com todos os participantes do campeonato de Fórmula 1, para assegurar a legitimidade e a justiça da competição, e estou ciente das sérias consequências que eu poderia sofrer caso eu conceda à FIA qualquer falso testemunho”, declara Nelsinho no documento. Veja os principais trechos a seguir.

A reunião com Briatore
“A proposta de causar um acidente deliberadamente foi feita logo antes da corrida, quando eu fui abordado por Briatore e Symonds. Na presença de Briatore, Symonds me perguntou se eu ‘sacrificaria a minha corrida pela equipe, provocando a entrada do Safety Car'”.

Estado mental frágil
“Durante aquela conversa, eu estava em um estado mental e emocional muito frágil. Isto se deu devido ao intenso stress causado pelo fato de que Briatore se recusou a informar se meu contrato seria ou não renovado na próxima temporada, como se costuma fazer a partir do meio do ano. E nós discutíamos regularmente essa renovação, mesmo em dias de corrida, quando deveríamos estar concentrados”.

A decisão de aceitar bater
“O stress foi acentuado pelo fato de que eu ia largar em 16º no grid, então estava muito inseguro quanto ao meu futuro. Quando me pediram para bater, aceitei porque esperava que isso melhorasse a minha posição dentro da equipe. Em nenhum momento ninguém me disse que, se eu causasse o acidente, teria meu contrato renovado. Mas, naquele contexto, eu pensei que ajudaria”.

A instrução do diretor
“Depois do encontro, Symonds me chamou para um canto e, usando um mapa, apontou a curva exata onde eu deveria bater. Essa curva foi escolhida porque não havia lá nenhum guincho que pudesse içar o carro, nem tinha saídas laterais, o que forçaria a entrada da equipe para retirar o carro danificado da pista”.

A estratégia
“Symonds também me indicou a volta em que deveria causar o incidente, para que uma estratégia pudesse ser desenvolvida a fim de que o meu companheiro Fernando Alonso reabastecesse nos boxes logo antes da entrada do Safety Car, o que ele de fato fez na volta 12”.

Despreocupação com segurança
“Durante essas conversas, nenhuma menção foi feita sobre qualquer preocupação a respeito das implicações de segurança dessa estratégia, seja para mim mesmo, para o público ou os outros pilotos. O único comentário feito nesse sentido foi de Pat Symonds, que me pediu para ‘ter cuidado’, o que eu entendi como que não deveria me machucar”.

Conversas no rádio
“Para ter certeza de que eu iria causar o acidente na curva correta, eu chamei várias vezes a equipe no rádio para confirmar o número da volta, o que eu normalmente não faço”.

Sigilo
“Depois das conversas com Briatore e Symonds, a ‘estratégia do acidente’ nunca foi discutida com qualquer outro membro da equipe. Briatore me disse ‘obrigado’ discretamente no final da corrida, sem dizer nada mais. Não sei se alguém mais sabia dessa estratégia antes da corrida”.

Revelação
“Depois da corrida, eu informei o Sr. Felipe Vargas, amigo e conselheiro da família, sobre o que aconteceu. Ele depois contou para o meu pai, tempos mais tarde”.

Primeiras suspeitas
“Depois da prova, vários jornalistas me perguntaram sobre o acidente e disseram que foi ‘suspeito’. No meu próprio time, um engenheiro questionou a natureza do acidente. Respondi que eu havia perdido o controle do carro. Mas acho que um engenheiro esperto teria percebido, pela telemetria, que eu bati de propósito, porque eu continuei acelerando quando a reação normal seria frear”.

Fonte: UOL

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *