Papo de Box: Goiânia com saudades, por Oscar Sajovic

Oscar Sajovic, atualmente disputando o campeonato brasileiro de Stock Light, já participou dos mais diversos torneios do nosso automobilismo nacional, sempre tendo muitas histórias para contar. Relatos esses que serão compartilhados com todos os internautas a partir da coluna Papo de Box aqui no SpeedRacing.com.br.


Ruben Fontes venceu lá em Tarumã, na V8 em 2005, debaixo de um dilúvio, correndo com o carro da equipe do competente Jorginho Freitas, que já foi piloto e dos bons.

Nós da Light não corremos lá, não cabem tantos carros nos boxes, uma pena porque gosto muito daquela pista e do povo gaúcho. Fontes é goiano e o pai dele, Cairo correu comigo em uma corrida do Campeonato Brasileiro, lá em Goiânia.

O Velho era fera, enfiava o pé. Levei junto comigo para  essa corrida em goiânia um amigo paulistano, que corria de Fórmula Ford. Eu corria no Brasileiro de Divisão 1, Classe A, com um Passat TS que havia comprado zero , em condições e preço especiais da Volkswagen para participar de corridas. Naquele tempo a Volkswagen era muito atuante e respeitada em corridas.
Patrocinava o Campeonato Brasileiro de Super V e também Fórmula V, além do Campeonato Brasileiro de Divisão 1. Hoje, graças aos esforços do Pedro Paulo Diniz, e do Carlos Col da Vicar ela esta voltando, e por cima; na Stock Car onde vai competir com o belíssimo Bora.

Betão era muito boa pessoa e foi, a viagem inteira me falando que namorava a Miss Goiás, que ela era muito bonita, etc. Me falou tanto da beleza da namorada que acabei ficando curioso e perguntei para ele, se por acaso não tinha uma irmã.

Nessa corrida eu larguei em 4º, mas a terceira marcha não entrou e perdi tempo e várias posições caindo p/ 14º ou 15º. Para minha felicidade, Betão me disse que ela tinha uma irmã mais nova que era mais bonita ainda que a namorada dele.

Vim recuperando posições com facilidade. O carro estava muito bom, com um novo acerto que copiei do DKW do Volante 13.
Betão achou esse DKW, abandonado em um terreno lá em São Paulo; e me levou pa vê-lo. Tinha 3 carburadores Dellorto 40, bomba elétrica de combustível, chassi encurtado, motor 2 tempos com 3 cilindros preparadíssimo e o interior totalmente despojado, tornando-o um carro muito leve. Na pista chamavam-no Mickey Mouse. Jorge Letry havia desenvolvido essas Dekas, até o limite, quando fora chefe do departamento de competições da Vemag.
Jorge antes havia trabalhado em uma equipe que tinha o Cristian Heins como Piloto.

Quando Betão me disse sobre a irmã da namorada , até saá da estrada, de tão emocionado que fiquei. Pensei: vou voltar casado.

Essa DEKA tinha também a suspensão dianteira alta e muito mole.
Comprei um par de molas dianteiro novo e levei lá no Boleti, um Italiano Velho, meu Amigo que tinha uma fábrica de carroças, p/ baixa-las. Não havia tempo para ir à SP, tinha que ser feito lá em Bauru, onde eu morava. Passei as medidas para ele e fiquei vendo o serviço. Ele baixou as molas e jogou-as no chão, rubras ainda. Perguntei se ele não iria dar têmpera nem revenimento e disse que não precisava, que isso era luxo. Pensei que havia jogado fora o dinheiro das molas, mas levei-as p/ experimentar, juntamente com os amortecedores mais moles que o Velho Quággio havia feito para mim.

Qdo chegamos lá em Goiânia, ao deixar Betão na casa da namorada, fiquei enrolando para ver se a irmã não saía também para recebê-lo. Betão precisou me mandar embora, e a cunhada não apareceu.

Fui bem cedo a Govesa, que instalou as molas e amortecedores novos e fui para o Autódromo. Era sensível a diferença, o carro freava melhor e tinha muito mais aderência. Era muito rápido na entrada do miolo. Não transferia tanto peso para a frente nas freadas.

Betão apareceu à tarde e sem a cunhada.

No sábado na tomada de tempo vim melhorando volta a volta,a medida que os pneus se acamavam, mas estourou um flexível do freio na freada da entrada  do miolo  e sai “voando” pela grama.
Precisei parar; sem freios, mas acabei ficando no entanto com o 4º tempo de largada, ao lado de Otávio no grid. Se não fosse o problema com os freios, poderia ter melhorado.

Após a tomada de tempos Betão apareceu com a namorada, que era  muito mais bonita do que ele falava e com a Cunhada. Ela pesava 150 kilos e tinha espinhas até no cotovelo. Seu nariz parecia um pepino. Ela já chegou gritando meu nome e me chamando de meu amor. Marcamos um encontro a noite; não havia como não marcar. Delicadamente, acabei passando mal à noite e não compareci.

Fui subindo de posições até chegar nos carros da Condor; 4 nessa corrida. Haviam três logo à minha frente. No terço final do retão quando encostei neles, vi Mário Pedro apontar o indicador insistentemente para a direita, mandando os dois outros carros me bloquearem. Eu estava estreando uma caixa de câmbio mais curta que havíamos tirado do carro do Jorjão Farah da Algodoeira Piratininga; um Passat 73, muito apropriada para o Autódromo de Goiânia.

Quando me aproximei, Sergio bloqueou  impedindo-me de ultrapassa-lo, pela direita. Tentei pela esquerda, mas ele me bloqueou novamente, me batendo e jogando na grama. O carro estava tão bom, que recuperei e me aproximei rapidamente  tentando novamente ultrapassá-lo no fim do retão.

Sem sucesso e novamente na grama após levar outra batida. Eles me bloqueavam e batiam. Fui me irritando com aquilo, mas tinha que fazê-los errar, para conseguir ultrapassá-los. Em uma das voltas, consegui enfiar por dentro, mas o carro de Márcio que estava à frente me segurou, para que Sérgio voltasse a me ultrapassar.

De tanto tentar, consegui levar os dois no fim do retão, após um intenso drible, joguei duas rodas na grama pelo lado interno da 1 e passei esfregando neles. Cheguei rápido em Pedro, e fiquei tentando várias voltas, ultrapassá-lo. Novamente no final do retão, consegui colocar por dentro, após tomar várias batidas dele.

Quando direcionou o carro à direita para tangenciar, fui junto e acabei batendo em sua lateral, jogando-o para fora da pista. Fiquei observando seu capacete pular dentro do carro, a mais de 180 km/h na área de escape. Passei Mário e parti para a frente.

Cheguei rápido em André, imaginando que iria ser uma guerra, ultrapassá-lo. Quando nos aproximamos do S, André rodou sozinho na minha frente. Passei e parti para cima de Romualdo que ocupava a 2ª posição. Cheguei rápido nele e comecei a empurrá-lo para chegarmos em Otávio, que liderava.

Nos aproximamos muito, mas terminamos nessa ordem. Domingo Betão trouxe a namorada e a cunhada e paguei um mico danado, com ela correndo atrás de mim e me chamando de meu amor. Precisei me esconder em outros boxes. Betão trouxe a bagagem também, pois iríamos embora depois da corrida.

Na segunda bateria o rendimento do motor caiu muito e fui sendo ultrapassado até que o motor acabou apagando de vez. Fiquei parado depois do bico de pato. Cairo Fontes que havia abandonado na primeira bateria após levar diversas batidas de Romualdo, chegou em 3º na segunda, após ultrapassá-lo.

Ao chegar em casa de volta e desmontar o carburador, descobri que “alguém” havia furado o diafragma do segundo estágio do carburador com uma chave de fenda muito fina. Isso impedia o 2º estágio de funcionar e ocasionava a queda de potência sentida. Descobri que a história da cunhada do Betão, era armação. Ele inventou toda a história para se divertir e contratou a garota, pagando-a.

Vim embora com a bagagem dele e o deixei no Autódromo, se despedindo da namorada. No caminho de volta de Goiânia eu vinha pensando em armar alguma para o Betão. Mas tinha que ser uma muito boa.

Vi um atropelamento na estrada, coisa horrível de se ver: um caminhão atropelou uma galinha. Parei para socorrer, mas não havia mais nada p/ fazer. A coitada morreu na hora.

Olhando desconsolado a infeliz, lembrei da bagagem do Betão. Cheguei em Bauru e larguei a bagagem do Betão no sol. Isso por uns três dias. Depois levei tudo lá no Expresso de Prata e enviei para SP, para o apartamento do Betão. Ele morava em um prédio luxuosíssimo no Morumbi.

Foi preciso chamarem os Bombeiros, para retirar de lá a bagagem. Quando ele abriu a mala, o apartamento foi inundado por cheiro de carniça horrível, emanado dos despojos da infeliz da galinha, que eu havia acomodado cuidadosamente na sua bagagem. Não sobrou ninguém no apartamento, todo mundo fugiu. Dormiram em um Hotel naquela noite.

Ele havia me ligado quando chegou a bagagem agradecendo. Disse que havia se arrependido do que havia feito.

Eu lhe disse que não havia do que se arrepender.

Amigo é para isso.

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